TRAIDORES DE JUDAS

Saturday, August 07, 2004

CASTIGO

A gente briga,
Diz tanta coisa que não quer dizer
Briga pensando que não vai sofrer
Que não faz mal se tudo terminar

Um belo dia,
A gente entende que ficou sozinho
Vem a vontade de chorar baixinho
Vem o desejo triste de voltar

Você se lembra?
Foi isso mesmo que se deu comigo
Eu tive orgulho e tenho por castigo
A vida inteira pra me arrepender

Se eu soubesse
Naquele dia o que sei agora
Eu não seria este ser que chora
Eu não teria perdido você


TAIGUARA

Friday, August 06, 2004

O DIARIO DE LOU REED

"Eu falo por meio das minhas canções"
por Lou Reed
Domingo, 10 de setembro de 2000, 9h 45min

Querido diário: Hoje eu estou em Belfast. É um frio, chuvoso, empoçado e gelado dia. De noite, a vista do meu quarto é maravilhosa. É um quarto de quina com janelas em ambos os lados, e eu tenho uma vista panorâmica da cidade e do Rio Lagen diretamente debaixo de mim. De noite, as luzes na rua e nas casas piscam como árvores de Natal, tochas de flamingo parecem delinear a cidade em espirais, e isso tudo é glorioso. De dia a mágica se vai e eu estou na verdade entre construções em obras e muitas pontes cruzando o rio.

Um camareiro me acordou hoje ignorando o "Não Perturbe" e aproximando-se tanto da minha cama que poderia ter passado direto por ela, acordando-me com um "Desculpe-me, senhor!", antes de bater em retirada ruidosa para o hall e caído na segurança do corredor, deixando o meu "Não Perturbe" no chão.

Não vemos muito da cidade porque tudo está fechado por causa das ameaças de bomba. A luta parece não ter fim. Nós comemos no sports bar do Hilton. Que parece ter sido projetado por um estagiário. É tão profundamente feio que você ri. Felizmente eles têm Sky Sports, que é um canal esportivo europeu.

Mas você não pode tê-lo no seu quarto porque eles querem você no bar. Eu não tomo um drinque há um bom tempo. Eu me divirto à noite me sentindo "normal" e forte sem ser afetado pelo álcool. Os shows em Manchester e Bristol foram realmente bons, embora os jornais e revistas tivessem previsto que as pessoas não iriam porque eu não toco as velhas canções.

Ah, mas às vezes eu toco. Mas vejo o set como uma jóia - uma jóia in progress, sem dúvida -, uma legítima jóia na qual as partes móveis têm sido lustradas e polidas tanto quanto nós podemos, e nós encaramos o show como uma peça.

Desculpem-me pessoas que querem ouvir canções de 30 anos atrás e escolheram não ir ao show, mas eu acredito na minha musa e vou viver ou morrer por ela (bem, morrer é um pouco forte), talvez abrir meu próprio bar de onde eu não possa ser demitido é uma coisa mais limpa a se dizer.

Uma outra coisa. O resenhista na Escócia - um parvo - veio de novo com aquela história de quão dark, raivoso, etc., eu sou, ignorando completamente os crescendos de várias emoções orquestradas no show, e atendo-se meramente à noção do que eu sou. O público teve uma maravilhosa noite.

Aproveitando-se do espaço entre as canções, um jovem mantinha-se implorando: "Fale conosco, Lou."

Eu devo dizer a você: eu falo com você por meio das canções. Eu digo a vocês mais do que muitas pessoas sabem sobre seus amigos. Eu tenho tido essa relação com você durante anos e nunca abusaria disso. Eu falo de mente a mente, coração a coração, espírito a espírito por meio da música.

Trecho do diário que Lou Reed escreve no seu site oficial ( www.loureed.com )
Publicado no jornal "O Estado de S. Paulo", dia 8 de novembro.

RESSACA

Hoje, existem pílulas milagrosas, mas eu ainda sou do tempo das grandes ressacas. As bebedeiras de antigamente eram mais dignas, porque você as tomava sabendo que no dia seguinte estaria no inferno. Além de saúde era preciso coragem. As novas gerações não conhecem ressaca, o que talvez explique a falência dos velhos valores. A ressaca era a prova de que a retribuição divina existe e que nenhum prazer ficará sem castigo.

Cada porre era um desafio ao céu e às suas feras. E elas vinham: Náusea, Azia, Dor de Cabeça, Dúvidas Existenciais - golfadas. Hoje, as bebedeiras não têm a mesma grandeza. São inconseqüentes, literalmente. Não é que eu fosse um bêbado, mas me lembro de todos os sábados de minha adolescência como uma luta desigual entre a cuba-libre e o meu instinto de autopreservação. A cuba-libre ganhava sempre. Já dos domingos me lembro de muito pouco, salvo a tontura e o desejo de morte.

Jurava que nunca mais ia beber, mas, antes dos trinta, "nunca mais" dura pouco. Ou então o próximo sábado custava tanto a chegar que parecia mesmo uma eternidade. Não sei o que a cuba-libre fez com meu organismo, mas até hoje quando vejo uma garrafa de rum os dedos do meu pé encolhem.

Tentava-se de tudo para evitar a ressaca. Eu preferia um Alka-Seltzer e duas aspirinas antes de dormir. Mas no estado em que chegava nem sempre conseguia completar a operação. Às vezes dissolvia as aspirinas num copo de água, engolia o Alka-Seltzer e ia borbulhando para a cama, quando encontrava a cama. Mas os métodos variavam.

Por exemplo:

Um cálice de azeite antes de começar a beber -- O estômago se revoltava, você ficava doente e desistia de beber.

Tomar um copo de água entre cada copo de bebida -- O difícil era manter a regularidade. A certa altura, você começava a misturar a água com a bebida, e em proporções cada vez menores. Depois, passava a pedir um copo de outra bebida entre cada copo de bebida.

Suco de tomate, limão, molho inglês, sal e pimenta -- Para ser tomado no dia seguinte, de jejum. Adicionando vodca ficava um bloody-mary, mas isto era para mais tarde um pouco.

Sumo de uma batata, sementes de girassol e folhas de gelatina verde dissolvidas em querosene -- Misturava-se tudo num prato pirex forrado com velhos cartões do sabonete Eucalol. Embebia-se um algodão na testa e deitava-se com os pés da ilha de Páscoa. Ficava-se imóvel durante três dias, no fim dos quais o tempo já teria curado a ressaca de qualquer maneira.

Uma cerveja bem gelada na hora de acordar -- Por alguma razão o método mais popular.

Canja -- Acreditava-se que uma boa canja de galinha de madrugada resolveria qualquer problema. Era preciso especificar que a canja era para tomar, no entanto. Muitos mergulhavam o rosto no prato e tinham de ser socorridos às pressas antes do afogamento.

Minha experiência maior era com a cuba-libre, mas conheço outros tipos de ressaca, pelo menos de ouvir falar. Você sabia que o uísque escocês que tomara na noite anterior era paraguaio quando acordava se sentindo como uma harpa guarani. Quando a bebedeira com uísque falsificado era muito grande, você acordava se sentindo como uma harpa guarani e no deposito de instrumentos da boate Catito's em Assunção.

A pior ressaca era de gim.

Na manhã seguinte, você não conseguia abrir os dois olhos ao mesmo tempo. Abria um e quando abria o outro, o primeiro se fechava. Ficava com o ouvido tão aguçado que ouvia até os sinos da catedral de São Pedro, em Roma.

Ressaca de martini doce: você ia se levantar da cama e escorria para o chão como óleo. Pior é que você chamava a sua mãe, ela entrava correndo no quarto, escorregava em você e deslocava a bacia.

Ressaca de vinho. Pior era a sede. Você se arrastava até a cozinha, tentava alcançar a garrafa de água e puxava todo o conteúdo da geladeira em cima de você. Era descoberto na manhã seguinte imobilizado por hortigranjeiros e laticínios e mastigando um chuchu para alcançar a umidade. Era deserdado na hora.

Ressaca de cachaça. Você acordava sem saber como, de pé num canto do quarto. Levava meia hora para chegar até a cama porque se esquecera como se caminhava: era pé ante pé ou mão ante mão? Quando conseguia se deitar, tinha a sensação que deixara as duas orelhas e uma clavícula no canto.

Olhava para cima e via que aquela mancha com uma forma vagamente humana no teto finalmente se definira. Era o Peter Pan e estava piscando para você.

Ressaca de licor de ovos. Um dos poucos casos em que a lei brasileira permite a eutanásia.

Ressaca de conhaque. Você acordava lúcido. Tinha, de repente, resposta para todos os enigmas do universo. A chave de tudo estava no seu cérebro. Devia ser por isso que aqueles homenzinhos estavam tentando arrombar a sua caixa craniana. Você sabia que era alucinação, mas por via das dúvidas, quando ouvia falar em dinamite, saltava da cama ligeiro.

Hoje não existe mais isto. As pessoas bebem, bebem e não acontece nada. No dia seguinte estão saudáveis, bem-dispostas e fazem até piadas a respeito.

De vez em quando alguns dos nossos se encontram e se saúdam em silêncio. Somos como veteranos de velhas guerras lembrando os companheiros caídos e o nosso heroísmo anônimo.

Estivemos no inferno e voltamos, inteiros.

Um brinde.

E um Engov.

LUIS fERNANDO VERISSIMO

O QUASE

O quase

Ainda pior que a convicção do não é a incerteza do talvez, é a desilusão de um quase.
É o quase que me incomoda, que me entristece, que me mata trazendo tudo que poderia ter sido e não foi.
Quem quase ganhou ainda joga, quem quase passou ainda estuda, quem quase morreu está vivo, quem quase amou não amou.
Basta pensar nas oportunidades que escaparam pelos dedos, nas chances que se perdem por medo, nas idéias que nunca sairão do papel por essa maldita mania de viver no outono.
Pergunto-me, às vezes, o que nos leva a escolher uma vida morna; ou melhor não me pergunto, contesto.
A resposta eu sei de cor, está estampada na distância e frieza dos sorrisos, na frouxidão dos abraços, na indiferença dos "Bom dia", quase que sussurrados.
Sobra covardia e falta coragem até pra ser feliz.
A paixão queima, o amor enlouquece, o desejo trai.
Talvez esses fossem bons motivos para decidir entre a alegria e a dor, sentir o nada, mas não são.
Se a virtude estivesse mesmo no meio termo, o mar não teria ondas, os dias seriam nublados e o arco-íris em tons de cinza.
O nada não ilumina, não inspira, não aflige nem acalma, apenas amplia o vazio que cada um traz dentro de si.
Não é que fé mova montanhas, nem que todas as estrelas estejam ao alcance, para as coisas que não podem ser mudadas resta-nos somente paciência porém, preferir a derrota prévia à dúvida da vitória é desperdiçar a oportunidade de merecer.
Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo. De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque, embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

Luis Fernando Verissimo